O infutsal esteve à conversa com Kitó Ferreira, numa entrevista que publicamos em seguida. Gostariamos de agradecer ao Kitó o tempo que dedicou a responder às nossas perguntas, e por todo o apoio que nos deu.
infutsal - Já estás no cargo de seleccionador há alguns anos, como aconteceu esta ligação à A.F. Leiria?
Kitó Ferreira - De uma forma natural. Há 4 anos recebi o convite para integrar a equipa técnica das selecções de Futsal da AFL por parte do Prof. Rui Bandeira, que era o coordenador da AFL na altura, e do Prof. Nuno Dias, então seleccionador sub-18.
infutsal - Para ti, qual a importância das selecções jovens no desenvolvimento do futsal no distrito?
Kitó Ferreira - Tem muita, pois as selecções são um patamar que todos os atletas gostam de atingir, mas que só os melhores conseguem. No caso das selecções distritais é muitas vezes o reflexo do trabalho desenvolvido pelos clubes, nesta caso do distrito de Leiria. As experiências adquiridas nas selecções são muito importantes para os atletas e enriquecem as suas carreiras, e não esquecendo que as selecções distritais são apenas um patamar abaixo da selecção nacional.
infutsal - E no futuro dos atletas que as representam?
Kitó Ferreira - Pois, esse é por vezes o grande problema. Atingir uma selecção até á idade de sub-21 deveria ser para os atletas um caminho importante nas suas carreiras, já que nestas idades é o princípio de tudo, mas o que acontece por vezes é que alguns olham para este patamar como um término de um objectivo, como uma certeza absoluta, como uma realização desportiva, etc. Quando o pensamento a atitude deveria ser exactamente o contrario, e esse é um dos grandes problemas do nosso Futsal em Leiria.
Somos nós que incutimos essa mentalidade pontual de algo conseguido e não trabalhamos a mentalidade dos atletas para que construam uma carreira sustentada, em progressão, e com ambições de querem sempre mais e com espírito de sacrifício para evoluírem diariamente numa carreira desportiva que pode ter 20/25 anos de sucesso.
infutsal - Qual é a relação dos clubes do distrito com a selecção?
Kitó Ferreira - Péssima, a relação entre as selecções e os clubes resume-se a dois ou três contactos directos e a quatro ou cinco responsáveis de clubes, o que é uma grande frustração dado ao universo existente de Futsal no Distrito de Leiria.
Kitó Ferreira - Tem feito um bom trabalho, não é por acaso que a AFL é a 2ª associação no ranking em Portugal. Isso deve-se muito ao trabalho do Futsal em Leiria e também não é por acaso que esta geração que agora terminou na idade de sub-21 conseguiu em 3 anos de selecções conseguiu dois vice campeonatos nacionais. Mas isso não se pode transformar num problema, mas sim num caminho em frente muito mais sustentando e reforçado e dar continuação a este trabalho.
Agora, se ficarmos agarrados à nossa mentalidade pontual do que já conseguimos, então este trabalho foi em vão. Há muita situação para evoluirmos e principalmente muitos erros que devemos tirar ilações e não voltar a cometer. Na minha opinião deveríamos todos debater já 3 assuntos; Primeiro, nas nossas divisões distritais de seniores os jogos passarem a ser cronometrados; Segundo, criar uma 1ª e 2ª divisão no escalão de juniores; e em terceiro, aproximar os clubes dos trabalhos das selecções e vice-versa. Na minha opinião são 3 pontos fundamentais para a evolução do Futsal em Leiria.
infutsal - Qual o balanço destes meses de trabalho com a selecção sub-21?
Kitó Ferreira - Se tiver que falar somente no trabalho da selecção sub-21, o resultado final é negativo, pois tínhamos como objectivo ir á final-four e não passámos a fase de grupos, e ai sou eu o grande responsável por este insucesso.
infutsal - Quais são os principais critérios de selecção de jogadores para a selecção sub-21? Há um perfil definido?
Kitó Ferreira - Obviamente que esta pergunta como a anterior são duas perguntas difíceis de responder, porque este trabalho é baseado em 3 anos e não somente neste. Em relação ao perfil de jogador claro que existe, há vários requisitos que tem de ser cumpridos e dos quais eu não abdico, e, ai sou muito exigente. Em relação ao critério de selecção de jogadores é claríssimo que me baseei no trabalho desenvolvido nestes 3 anos e no aparecimento de novos valores dentro deste escalão.
infutsal - Na selecção existe um modelo de jogo predefinido e os jogadores são escolhidos consoante esse modelo ou o modelo de jogo depende dos jogadores disponíveis para convocar?
Kitó Ferreira - Existe claramente um modelo de jogo pré definido, até porque se eu entendo que os clubes devem ter uma aproximação forte com a selecção distrital, não fazia sentido a selecção distrital não fazer esse trabalho com a selecção nacional. Dai esse modelo de jogo ser bastante semelhante ao trabalho das selecções nacionais, sendo também verdade que dentro do perfil de jogador das selecções, os atletas adaptam-se com maior ou menor facilidade a qualquer modelo de jogo.
infutsal - Qual o balanço final da participação no Torneio Inter-Associações de sub-21?
Kitó Ferreira - É um balanço muito negativo por várias razões que passo a explicar: Sabíamos à partida que este seria o ano mais difícil desta geração. Vínhamos de 2 anos em que nos tornamos vice-campeões nacionais e a cabeça de cada atleta é diferente. E como nós só estamos com os atletas esporadicamente, não podemos fazer um bom trabalho nesse sentido, a nível psicológico.
Depois é uma idade fantástica mas complicada em vários níveis, praticamente todos os atletas esta época tiveram transições significativas e de grande importância, quer a nível pessoal, quer a nível desportivo, a maioria trocou de clubes e outros subiram a seniores, juntando isso a uma idade que tudo se move rapidamente e existe muita descoberta pessoal. Depois apareceram problemas na preparação que não estávamos á espera e fomos apanhados de surpresa e não conseguimos lidar com eles da melhor forma. Só para se perceber, somente no treino realizado na quarta-feira da semana do torneio inter-associações é que conseguimos ter todos os atletas disponíveis, pois nos outros treinos nunca o conseguimos. Umas vezes por falta dos atletas, outras por lesões, outras porque os clubes impediam os atletas de treinar, etc. …
Juntando a isto o treinarmos ao domingo de manhã (fui eu que propôs os treinos ao domingo de manhã para não prejudicar o trabalho dos clubes) nestas idades foi uma experiência negativa. Só para se perceber por vezes a nossa mentalidade desportiva: Tivemos um atleta que faltou a um dos treinos e que nos enviou uma mensagem ao meio-dia e meia (o treino era as 10.30h) a informar que estava com febre, e nessa noite foi visto às 5,30h da manhã numa discoteca da zona, alcoolizado. Ora, este atleta deixa imediatamente de encaixar no perfil de atleta de selecção, até porque cada caso é um caso e tem de ser tratado como tal, mas cria problemas de várias ordens. Temos de ir à procura de novas soluções, introduzi-las no grupo, explicá-las, e nós sabemos que tempo para trabalhar é coisa que não temos nas selecções.
Depois é preciso perceber que as outras selecções também evoluíram, e neste momento estes torneios já têm uma intensidade de jogo muito alta e por vezes de grande qualidade.
Estes e muitos outros problemas condicionaram muito esta época e aí sou o inteiro responsável por este insucesso, pois não tive capacidade para os ultrapassar. Existe algo também importante, fomos a única selecção a apresentar atletas juniores, atletas seniores a competir no distrital e atletas a competir na 3ª divisão nacional, na 2ª divisão nacional e na 1ª divisão nacional.
infutsal - Após a vitória contra a A.F. Santarém, nos jogos contra a A.F. Lisboa e A.F. Algarve, a A.F. Leiria começou sempre a ganhar, e com a equipa de Lisboa até esteve a ganhar 4-1 bem perto do fim, mas acabou por perder ambos os jogos. Queres comentar estes jogos em particular?
Kitó Ferreira - Por todas estas situações descritas anteriormente, e porque num torneio deste nível sabemos que o 1º jogo é muito importante, encarámos o jogo com Santarém de uma forma muito forte e acabámos por fazer um excelente exibição e um bom resultado. Mas isso deixou marcas, quer em termos de carga psicológica quer em termos físicos, tornou-se muito desgastante. E partimos para o jogo com Lisboa já sabendo que quem ganhasse o jogo era imediatamente apurado para a final-four, dado o resultado de Santarém contra o Algarve. E ai apesar de fazermos uma grande 1ª parte, Lisboa foi mais forte do que nós na 2ª parte e não conseguimos segurar a vantagem e claudicamos principalmente em termos físicos, pois os anímicos já estavam desgastados. Contra o Algarve que já só contava para o calendário e é daqueles jogos que ninguém gosta de fazer mas no caso o Algarve, ao contrário de nós, só podia melhorar e foi o que aconteceu.
infutsal - Depois de jogar contra outras associações, que diferenças encontraste (se é que existem) a nível de organização, logística e treino?
Kitó Ferreira - Várias, umas boas e outras más. Dai eu ter proposto á AFL que este trabalho só fazia sentido se nós alterássemos algumas situações e aprendêssemos com alguns erros que cometemos. Dai ter proposto a AFL que a 1ª situação a realizar era uma aproximação e discussão do Futsal de Leiria com os clubes e principalmente com os treinadores, porque não faz qualquer sentido este trabalho se ele não for em conjunto. Felizmente a AFL concordou e estão já marcadas três acções com os clubes e treinadores.
infutsal - E a nível de jogadores? Em relação a qualidade, mentalidade, experiência, etc.
Kitó Ferreira - Em relação aos jogadores, é igual á resposta anterior, mas temos de ser nós treinadores e responsáveis pelo Futsal em Leiria a melhorar a nossa qualidade de trabalho e principalmente a nossa mentalidade, quer desportiva quer competitiva, para depois prepararmos cada vez melhor os nossos atletas.
infutsal - Foram observados muitos jogadores, alguns que nunca tinham sido convocados para a selecção. Foi importante esta observação para preparar uma equipa forte para os Torneios?
Kitó Ferreira - Entendo que se deve observar o máximo de atletas, pois o que eles fazem ao domingo pode ter algo de diferente que durante a semana e para trabalhar nas selecções todos os pormenores são importantes. Quanto mais atletas forem observados mais soluções se podem vir a ter, e isso é importantíssimo para um trabalho de futuro.
infutsal - Houve jogadores que não conhecias e que achas que têm valor para integrar a selecção?
Kitó Ferreira - Sim, se aumentarem a sua qualidade de trabalho existem atletas com condições no Distrito de Leiria para realizarem carreiras interessantes.
infutsal - Houve jogadores que foram convocados apenas para alguns treinos e não foram integrados nos torneios, mesmo jogando em algumas das melhores equipas do Distrito. Qual a razão para não serem convocados, embora estivessem na faixa etária da selecção?
Kitó Ferreira - Por várias razões, mas todas elas sempre em consonância com os nossos princípios e principalmente em que seja preenchido todos os requisitos do perfil de atleta da selecção.
Para se perceber algumas situações, não podemos misturar os interesses de cada situação, pois para mim existem três critérios importantes neste sentido; A atitude do atleta, a atitude do clube e atitude do clube/atleta perante a selecção e todos os casos têm de ser avaliados individualmente.
Dou um exemplo. Um atleta que fazia parte da selecção do ano passado e que este ano mudou a sua atitude nos inícios dos trabalhos da selecção. Obviamente deixou de fazer parte desses mesmos trabalhos e o seu clube foi informado o porquê da sua saída. Na parte final dos trabalhos da selecção tivemos a informação do seu clube que a sua atitude tinha mudado e voltou a ser chamado. É verdade que foi já numa fase adiantada dos trabalhos, mas foi com agrado que neste trajecto de selecção, esse atleta teve altos e baixos e saiu da selecção com uma experiência enriquecedora para seu futuro e para a sua carreira, pois se continuar com a mesma atitude vai tirar proveito disso. Acabou por não o conseguir na selecção, mas se o conseguir no futuro será um exemplo como o trabalho das selecções em conjunto com os clubes é importantíssimo.
infutsal - Sabendo que o lugar de seleccionador sub-21 é privilegiado no que toca à observação e prospecção de jovens jogadores, consideras que Leiria tem bons valores nas camadas mais jovens?
Kitó Ferreira - Sim, mas também é o resultado da quantidade de atletas que aderiram ao Futsal de há uns anos a esta parte. Agora, nós temos que aproveitar e dar a esses atletas as condições e a qualidade para eles possam ser, no futuro, homens felizes e Atletas de sucesso.
infutsal - Houve selecções sub-19, sub-20 e sub-21 e agora será a vez dos sub-17. Porquê a aposta da A.F. Leiria neste escalão etário?
Kitó Ferreira - Porque estamos sempre dependentes do que a FPF faça em cada ano, dos torneios que existem e para que idades. Eu alertei para o facto de criarmos uma base de dados de atletas a começar por baixo, para que depois se possa fazer um trabalho sustentado e continuado e todo o Futsal de Leiria tirar proveito desse trabalho. Felizmente, a A.F. Leiria aceitou em conjunto com as suas congéneres de Aveiro, Porto e Coimbra a realização desse trabalho já esta época.
Kitó Ferreira - Para já vamos iniciar o trabalho dos sub-17 e para a próxima época logo se vê, dado que os trabalhos das selecções estão sempre dependentes dos interesses da FPF.
Aquilo que faço com grande paixão é trabalhar em prol do Futsal de Leiria, e em relação ao futuro nestas funções o melhor mesmo é trabalhar dia a dia porque isto move muitos interesses. E eu como sou e serei sempre um treinador independente estou á vontade nesse aspecto. Enquanto eu e a AFL nos sentirmos bem um com o outro trabalhamos, quando isso não acontecer terminamos a ligação, ponto final.
infutsal - Tens mais alguma coisa a acrescentar, visto seres uma pessoa que há muitos anos está ligado ao futsal em Leiria?
Kitó Ferreira - Tenho. Em jeito de conclusão, acho que foram 3 anos fantásticos, em que conseguimos algo inédito em Leiria que foi 2 vice campeonatos nacionais e 2 atletas nos trabalhos das selecções nacionais. Mas principalmente o que me enche de orgulho é que á 3 anos muito pouca gente em Leiria conhecia estes meninos e 90% deles hoje melhoraram as suas carreiras, alguns já são importantíssimos para os clubes que representam e são conhecidos em todo o Futsal distrital.
Por outra lado dá-nos uma grande experiência para um novo trabalho principalmente para evoluirmos em varias situações e não cometer mos alguns erros que cometemos. Em termos gerais foram 3 anos muito positivos para o Futsal distrital.
Kitó Ferreira - O infutsal, quer se goste ou não, é uma referência em Leiria e tem feito um trabalho de informação no Futsal que nenhum órgão de comunicação social faz. Em relação as críticas que por vezes vos fazem, é muito fácil criticar sem nada fazer, difícil é trabalhar. Os meus parabéns pelo vosso trabalho.
| Seguinte > |
|---|














